quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

E por falar em intertexto


O poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, escrito em julho de 1843, em Portugal, é, provavelmente, aquele que mais fora parafraseado em nossa língua, tornando-se - não apenas por isso - algo emblemático na literatura brasileira. Inúmeros escritores o tomaram como referência, como por exemplo, o Drummond em Nova Canção do Exílio, Mário Quintana em Uma Canção, ou Vinícius de Moraes no seu belíssimo Pátria Minha. Até o nosso Hino Nacional trás dois versos do poema: “Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida, mais amores.” Recentemente, quem utilizou Canção do Exílio como ponto de partida para um novo poema foi Ferreira Gullar, conterrâneo de Gonçalves Dias, que fez um poema, a meu ver, bem à altura do original e, como o original, todo vazado por versos em redondilha maior. Vamos a eles.


Canção do Exílio
Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Volta a São Luís
Ferreira Gullar

Mal cheguei e já te ouvi
gritar pra mim: bem te vi!
E a brisa é festa nas folhas
Ah, que saudade de mim!

O tempo eterno é presente
no teu canto, bem te vi

(vindo do fundo da vida
como no passado ouvi)

E logo os outros repetem:
bem te vi, te vi, te vi

Como outrora, como agora,
como no passado ouvi

(vindo do fundo da vida)

Meu coração diz pra si:
as aves que lá gorjeiam
não gorjeiam como aqui

Um comentário: