segunda-feira, 12 de setembro de 2011

SONETO DA MULHER AO SOL


Sempre afirmei que Soneto do amor total, Soneto da fidelidade e Soneto da separação formam a tríade dos poemas de Vinícius de Morais que mais gosto. São três poemas onde se revela um lirismo sentimental, tipicamente romântico, nunca abrindo mão do rigor métrico, rímico e, sendo o músico que foi, rítmico. A esses três acrescento agora um quarto poema, Soneto da mulher ao sol, um Alexandrino, diferentemente dos outros que são decassílabos.

SONETO DA MULHER AO SOL
[Vinicius de Moraes]

Uma mulher ao sol — eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol — eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce

E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente — e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...

Duas palavras sobre o poema acima e uma pergunta

A forma indicativa deixa (penúltimo verso) no lugar da indicativa deixe, dominante ao longo do poema, sugere a realização do desejo do poeta por parte da amada e não a simples manifestação de um apelo que não se soubesse correspondido. No entanto, o livro Para viver um grande amor (José Olympio. 8ª ed. 1973) traz a forma subjuntiva deixe, e não a indicativa deixa. Esse seria mais um erro de revisão ou uma sutil emenda do autor?

Clique AQUI e relembre os sonetos do amor total, da fidelidade e da separação.

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